3 de abr de 2017

Je t'aime arretado



Eu tinha uns 13 anos e no segundo semestre do ano letivo na escola apareceu aquele menino todo diferentão, arredio e mal encarado.
Acho que ninguém falava muito com ele por conta da cara de mau, e um rosto um tanto sofrido para aquela pouca idade.
Eu não lembro exatamente, mas acho que era Jaider o nome.
Ele vinha do interior da Bahia. O pessoal da minha sala se referia a ele como ‘baiano’ e não o chamavam pelo nome.
Eu era uma menina tímida, auto consciente demais pra minha idade, e sob certos aspectos era também um ETzinho naquela sala de aula.
Aí um dia, sem maiores explicações, o Jaider levou uma vitrolinha portátil e me chamou para ouvir um disco que ele havia trazido especialmente para mim, uau!
Tratava-se o compacto de Je t’aime moi non plus, do Serge Gainsbourg.
Cês conhecem.
Eu podia sentir o meu rosto ficando vermelho igual a uma barra de download sendo preenchida na tela do computador... a cada gemido que a Jane Birkin dava.
Não lembro como foi a conversa, minha memória remota não grava dados, mas grava sensações, e o constrangimento ficou registradíssimo nos neurônios.
Só sei que, de alguma forma, viramos amigos nesse dia.
Ele me convidou pra conhecer sua casa, pertinho de onde eu morava. Fui lá e conheci a mãe e o irmãozinho menor.
Lembro que fiquei encantada com o cuidado que ele tinha com o irmãozinho, mostrava uma doçura que não ficava visível na escola.
Fiquei sabendo que logo ele iria voltar para a Bahia com a família, porque seu pai o havia ‘prometido’ em noivado à filha de um outro fazendeiro compadre, e por lá as coisas ainda aconteciam desse jeito.
Ele parecia resignado com essa situação não obstante os meus protestos indignados.
Foi a primeira vez que eu me vi feminista, mas do avesso.
E depois de poucos meses, nunca mais o vi.
Hoje, agora pouco, tocou a música no rádio e lembrei de contar essa historinha.

Je t’aime, meu rei.


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