12 de mar de 2014

Paulette, André e minhas alpargatas de corda



Brassaï • Paulette et André, 1949


Faz um tempinho que me deparei com as fotos comoventes de Robert Capa na Guerra Civil Espanhola... e de certa forma, procuro nelas os vestígios de uma história pessoal, cuja protagonista foi minha mãe, que a viveu na pele em Barcelona.
Entre tantas coisas que observo nas fotos de civis, no dia a dia da guerra, uma me chamou a atenção pelo detalhe inusitado e pelas recordações que evocou da minha própria adolescência.
Hoje ela voltou singelamente quando vi esta foto de Brassaï, de 1949 (uma Europa ainda sob o impacto do final da Segunda Guerra Mundial), com duas crianças maravilhosamente flagradas em uma linguagem corporal que diz muito! Paulette e André.
André usa umas alpargatas de tecido lonado e solado de corda... são duas crianças lindas, porém visivelmente frutos de uma Europa que ainda tentava custosamente se reerguer da devastação de uma guerra desse porte.
Vi recentemente nas fotos de Capa, da Espanha de 1939, algumas pessoas extenuadas pela miséria e absoluta falta de recursos, usando nos pés as mesmas alpargatas.
Então, hoje, mais de vinte e cinco anos depois que minha mãe se foi, eu finalmente consegui vislumbrar todo o significado de uma frase boba do passado: um dia, em 1976 (talvez), talvez com meus 14 anos e todas as influências da contracultura hippie ainda pulsando fortemente no meu entorno paulistano, com pouco ou nenhum entendimento real do que havia sido aquela guerra para minha mãe, eu entrei em casa feliz da vida usando um par dessas alpargatas de lona com solado de corda. Estavam super na moda.
Havia comprado com minhas economias de uma mesada incerta e bissexta. Estava me achando a própria Joan Baez ou algo assim, compondo perfeitamente com meu jeans surrado e agarradíssimo. Mostrei à minha mãe.
Ela me olhou entre a desaprovação e a tristeza, e disse, em bom castelhano: no me gusta que lo uses.

Tive muitas alpargatas depois daquela. E com todas as excentricidades que eu me atrevia a vestir naquela época, foi essa a única peça de vestuário que minha mãe desaprovou em toda sua vida.

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