10 de out de 2013

a menina na foto





Queria fazer pirraça, moleca que ainda sou, e fui procurar nos guardados uma foto minha da infância onde fazia uma cara horrível de maus bofes. Lembro-me até hoje do sobrado pequeno da rua Banco das Palmas, nº 205, eu e minha irmã mais nova junto de minha mãe, para que meu pai pudesse nos fotografar. O que não me lembro é da causa do mau humor, mas a cara feia ficou eternizada, uma carinha de ódio profundo que os mais íntimos já tiveram de sobra o desprazer de presenciar: meus maus bofes. Minha terrível cara de raiva.

Por anos, décadas, séculos no meu entender, eu odiei a foto tanto quanto odiei posar para ela... eu achava que ela era o testemunho do pior que há (ainda hoje) em mim. Só hoje, de cima dos meus 52 anos, é que lembrando dela achei engraçado demais, e fui procurá-la.
Não encontrei, deve ter se perdido nessas malas da vida. Há uma similar, feita no mesmo momento, mas já estou com uma cara mais aceitável, então não vale como aquela.
Justo quando resolvo me absolver do meu mau gênio, a foto some.

Não é fácil ser criança, não foi fácil eu ser criança. Tive uma infância com muitas brincadeiras, amigos... mas mesmo assim a infância me foi uma etapa da vida cheia de grandes incertezas, tristezas experimentadas sem a anestesia do entendimento, cheia de grandes perguntas que nunca foram respondidas. Posso perceber isso olhando para as fotos hoje, onde a menina me fita com tamanha vontade de saber, sempre saber. Compreender. Aliviar. Tirando o fato de sermos todos bonitos, a infância não é esse néctar dos deuses tão propagado, a menos que o seu cérebro tenha algum delay de fabricação.

Não há muitas fotos da minha infância. Uma boa porcentagem delas está distante, desfocada ou desbotada pelo tempo. Mas encontrei esta outra, que aqui está.

Nela eu vejo uma menina de 8 anos, com o viço que as meninas devem ter, mas com o olhar e expressão que só as futuras mulheres tem. Por isso a escolhi. Essa menina da foto é precocemente consciente de que toda a dor de crescer jamais será aplacada pelo amor dos pais, ou por uma fé, ou por conhecimento acumulado... a dor de crescer nos acompanha pela vida afora, e ser adulto é a arte de fingir que está tudo sob controle.