25 de fev de 2013

o último dia do verão







Eu sei, ainda temos algum verão pela frente... nem é hora pra falar disso.
Mas é que me lembrei. Pode ter sido a lua cheia de hoje, embora isso nada tenha a ver com lua.
Era na Guarda do Embaú, há uns bons anos atrás. Tínhamos casa lá, cuja inscrição no portão consentimos que ficasse: refúgio da montanha. No sopé da serra do Tabuleiro, vizinha íntima da reserva florestal de mesmo nome e a poucas quadras do Rio das Madres, onde era preciso atravessar (a pé ou de canoa) para chegar à praia ainda intocada pela mão do homem, graças a essa acessibilidade precária.
Um paraíso, tirando a temporada de turistas.
Quando o carnaval caía em fevereiro, eles iam logo embora e a praia ficava vazia, seus 8 km de faixa de areia e pequenas dunas, o marzão azul de um lado e o rio do outro. Eu então ia pra lá fazer minhas longas caminhadas, e ouvir o vento. Venta muito por lá e o vento faz um som muito peculiar com o atrito da areia.
Não há mais nada além do azul, do branco, e esse ruído do vento, por quilômetros.
Depois que a temporada turística terminava, sempre restavam algumas semanas de verão pra curtir as caminhadas em meio ao isolamento quase completo, e eu aproveitava o quanto podia, nem mesmo prestava muita atenção ao calendário.
Mas em todos os anos que estive por lá, em todos eles, aconteceu sempre algo muito curioso... muito encantador. Eu sempre soube qual era a última caminhada daquele ano, qual era o último dia de verão.
Em todos os anos, durante a tal caminhada, eu não sei explicar como sabia: mas sabia com toda a certeza, sem racionalizações, que aquela tarde era a última tarde quente do ano, a última em que seria possível sair sem agasalhos e sem o açoite inclemente do vento de outono/inverno, que por lá é bem severo.
Não havia indicações meteorológicas, não havia previsões nem nada. Eu apenas sabia e sentia, e sempre era daquele jeito, a coisa se confirmava. O dia seguinte amanhecia já esquisitão, vento frio, ou chuva, ou queda brusca de temperatura, enfim... já não dava mais pra fazer aquela lúdica incursão no silêncio de mim.
As semanas se seguiam mais ou menos confirmando o fim do verão... e só dali a um ano eu teria de novo aqueles momentos. E eu sabia quando era o ‘último dia de verão’, o meu verão particular, não o dos turistas (que recomeçava bem mais cedo, já em novembro ou dezembro).
E aí eu me despedia dele, com gratidão, não tanto pelo desfrute que ele tinha me proporcionado até ali, mas por me permitir saber - seja lá por que meios - que era o último dia.

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