25 de nov de 2012

sonho

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Olhava o campo aberto em torno da casa, imenso, sem divisar os limites do terreno, uma parte gramado e mais ao longe as árvores de um bosque nativo.
Tudo era quietude e tentava apenas se lembrar do sonho da noite anterior, reconstituindo mentalmente alguns detalhes antes que sumissem de vez da lembrança.
Foi  nesse mesmo instante que viu ao longe uma grande figura se aproximando, de modo a atravessar a extensão do gramado à sua frente: para sua surpresa era uma imensa carruagem luxuosa, puxada por um imenso cavalo, em velocidade irreal... à medida que o conjunto fantasmagórico atravessava diante de seus olhos, verificava que era uma espécie de espectro, transparente ou translúcido, no qual se podia ver ainda a paisagem através dele.
A figura sumiu e antes que pudesse se recuperar do espanto, viu uma caravela completa em toda sua majestade atravessar o pátio, da mesma forma etérea, semi  transparente. E assim se sucederam algumas figuras assombrosas, sem que pudesse realmente entender como aquilo era possível.
Por fim divisou uma grande tropa de cavalos selvagens, mas desta vez vindo diretamente em sua direção. Desviou o olhar por causa do medo que já se instalara... tomou coragem e olhou novamente: estavam cada vez mais perto. Uma terceira olhada e estaria perigosamente ao alcance deles. O que aconteceria? Eram reais? Constituiriam alguma ameaça já que pareciam não ser feitos de matéria sólida? Todas as perguntas num piscar de olhos e novamente virou o rosto em sua direção. Imediatamente o conjunto todo se condensou numa só figura que se postou a um metro de distância, sólida, não translúcida, com aspecto bem real: um indiozinho adolescente semi nu, com seu cabelo negro e liso cortado à moda dos índios brasileiros, e estranhamente obeso, desproporcionalmente obeso para sua idade e sua condição de índio... e antes que pudesse ao menos pensar, ele lhe estendeu a mão contendo uma laranja.
A laranja estava madura demais, semi podre, já com bolor verde em sua casca e de consistência mole. Quando a apanhou das mãos do índio, este desapareceu.
E se tudo lhe parecia incrivelmente estranho até ali, é nesse momento que uma clareza resignada toma o lugar de quaisquer outros pensamentos e ela sabe então, com a certeza que não pede explicações, que essa laranja é o índio, e que precisa beijar o umbigo da laranja superando seu nojo inicial sobre o bolor, um beijo de sinceridade. Assim o faz.
E segue com o que intuiu a ser feito em seguida: depositar a laranja para que cumpra seu ciclo de degeneração ao pé da árvore que a produziu. Procura a árvore, encontra, e ao ajoelhar-se para depositar o fruto na terra, constata que todo o chão em volta do tronco está recoberto de cimento acinzentado que se alastra indefinidamente até onde a vista alcança.
Mesmo assim, deposita o fruto, sobre a superfície estéril que não se alimentará dele.
E volta às suas notas mentais, sobre o sonho da noite anterior, tentando se lembrar em que momento teria despertado, ou não.

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