3 de nov de 2012

fale com ela

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Não sei precisar há quanto ela estava comatosa.
Vez em quando, à guisa de enfermagem básica e alguma nostalgia inútil, eu ia lá para tirar o pó e as teias de aranha, dar-lhe um banho de toalha úmida, limpar as escaras. Quando me permitia um pouco mais de otimismo, trocava-lhe o vestido, como se aquilo a mantivesse viva.
Fale com ela, me dizia Almodóvar na película.
Eu zombava, mas também não queria que ela morresse de todo, matadinha assim pela minha inoperância. Ela estava indo embora como veio: sem grandes apelos e misteriosamente.
Fale com ela.
Havia os dias em que eu só a sentia viva por causa da falta que ela me fazia. Ambas caladas, eu e ela. A madrugada tinha perdido parte do seu encanto.
E soro na veia, e monitores ligados dia e noite sem sinal nenhum, e canudos enfiados no nariz, e plugues apertando os dedos, e travesseiro ajeitado e cabelos penteados à espera.
Fale com ela.
E cansei, por fim desisti e virei as costas. Estava decidindo de que forma se desligam esses laços todos... estava elaborando mentalmente se existiria um luto possível ou tudo o que restaria era abstração.
Como de praxe nessas horas, a gente revisita as memórias. E ali sentada ao seu lado, madrugada adentro, resolvi:  fale com ela.
Isso deve fazer umas três semanas, pouco mais, pouco menos...
Moveu dois dedos, piscou levemente. Bocejou como quem volta de um longo sono e me pediu um café forte.
Estou tentando não achar que isso é só aquela dita “melhora da morte”.
Andamos brincando novamente, eu e ela, como nos velhos tempos, de construir impossibilidades com a argamassa mais barata que encontramos no mercado: a palavra.
Embora ainda inspire cuidados, ela já tem se mostrado levemente corada... já me provoca com seus jogos em horas impróprias, quando eu, recém egressa da normalidade, mesmo a contragosto  preciso  lhe pôr um freio:
- agora não, Poesia!
Mas falo com ela.

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