27 de ago de 2012

eu e o Neil






Eu tinha 7 anos naquela tarde de julho de 1969, e tudo o que queria era brincar na calçada.
Daí a estranheza quando meu pai chamou, com certo ar de gravidade, pra que fossemos à sala. A televisão ligada, ainda em preto e branc
o, era um móvel de pouco interesse, não tinha nenhum apelo pra mim.
Ele disse que chamara pra que eu visse, dali a alguns minutos, o primeiro homem colocar os pés na lua.
Era um semblante que eu até então desconhecia no meu pai: uma tímida euforia, uma expectativa quase palpável. Ele, que normalmente era de poucas palavras.
Não me lembro mais se minhas irmãs estavam junto, nem minha mãe. Só consigo lembrar dele sentado, olhos pregados no monitor, braços apoiados na poltrona.
Eu a certa altura devo ter questionado a péssima imagem de transmissão, aqueles borrões que vinham via satélite lá do espaço, da superfície lunar. Incerta do que disse, sua resposta no entanto me ficou pra sempre: “filha, olha bem, porque o ser humano neste minuto está fazendo história”.
E eu, que a esta altura da minha curta vidinha já sabia que ele não gastava verbo à toa, fiquei mais atenta.
E o resto todo mundo já sabe: “Houston, the Eagle has landed... one small step for man...”
Sábado passado morreu aquele cara que desceu a escadinha pela primeira vez.
Meu pai se foi há muito mais tempo.
Deixou comigo entre outras coisas, aquele fascínio pelo conhecimento, não o fascínio frio da ciência pura, mas o da ciência como desdobramento da busca humana, da nossa ânsia pelo desvendar dos segredos mais abissais do universo.
E uma herança de admiração por esse cara que partiu sábado passado, pela coragem de se dispôr a entrar naquela lata tão precária de tecnologia, e se jogar no satélite vizinho sem garantias de volta.
De algum modo, somos todos Neil. Armstrong ou Young, sempre new.

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“If you hold a stone, hold it in your hand
If you feel the weight, you'll never be late
To understand”

(Caetano Veloso)


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