30 de mar de 2012

blush

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E teve aquela vez, quando eu fui na escola para o "dia da mãe dar aula", quando era sorteada uma das mães da turma pra fazer alguma atividade que escolhesse, com as crianças.
E o pânico! Mas como é que eu vou? O que vou fazer com esse ajuntamento de pequenos seres de 5 anos? 
Criança nunca veio no meu colo assim de boa. Iam com ele, sorriam pra ele. Comigo era um chororô desgraçado.
Tirei a forra quando nasceu a minha, daí aprendi algum carisma misturado com leite, mas era só.
Não tinha sobrinhos, não tinha vocação, e ali estava decretado no bilhete: uma tarde de atividade com as crianças. Meu deus.
Até hoje não sei muito bem como fiz, mas bolei um negócio com 4 círculos vazios impressos numa folha de papel sulfite e xeroquei cópias para todos.
Cheguei lá assim com essa pouca didática. A Lu sentadinha com os colegas me olhava... acho que ela pensava o mesmo que eu: isso vai dar merda.
Então eu comecei dizendo que íamos todos desenhar dentro de cada círculo uma carinha, e as carinhas iam ser diferentes: uma de alegria, uma de tristeza, outra de medo e outra de raiva.
E toca desenhar com a mulecada. Se animaram. Davam palpites sobre sombrancelhas e bocas de raiva ou de medo. Lembravam dos desenhos animados.
Daí a segunda parte, pedi pra que eles falassem quando é que faziam aquelas caras todas... quando ficavam felizes, quando ficavam com medo, quando ficavam tristes, quando ficavam com raiva... e toca a mulecadinha desembestar a contar suas pequenas vidas ali, com a naturalidade dos que não se intimidam com intimidades.
E foi meio que uma terapia de grupo misturada com intervenções de todo tipo, eu olhando cada vez mais animada e um tanto comovida.
A despeito do meu desjeito, tinha conseguido alguma coisa afinal.
Terminamos a "atividade" com aparas de lápis apontados espalhadas por todo o chão da sala, pisando nelas, porque no auge da minha recém adquirida confiança tive a idéia de que faríamos as bochechas das carinhas com grafite em pó espalhado com o dedo, pra dar aquele ar 'corado' de blush.
O blush fez mais sucesso que a terapia, diga-se. Eles preferem as coisas práticas.
Voltei pra casa contando glórias, toda prosa. Entreti as crianças!
Ontem lembrei dessa história, e ela também se lembra, até com mais detalhes que eu... e eis.


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