01/07/2011
tempo
19 anos.
Meu primeiro emprego: no setor de engenharia da sede dos Correios de São Paulo - ainda em obras, com tapumes fazendo lugar de escritório, pedreiros e mestres de obra zanzando por ali, capacete na escrivaninha para o caso de precisar ir ao banheiro ou andar pelo prédio, que ainda tinha os poços dos elevadores abertos e andaimes por todo lado. Única mulher no edifício. Secretária dos engenheiros.
Pouco serviço, matando tempo: lendo jornal, ouvindo rádio.
Meu rádio-relógio branco cujo mostrador era feito de plaquinhas que caíam contando os minutos, e outras plaquinhas mais lentas que caíam a cada hora... presente de meu pai num dos natais.
Dali a alguns meses John Lennon iria ser assassinado na porta de casa.
Por aqui a gente mal começava a respirar os ares do estertor da ditadura.
O mundo era bipolar, e a olimpíada de Moscou, naquele ano, boicotada pelos EUA.
Em setembro seria publicado pela primeira vez o padrão da ethernet, uma estranha tecnologia para redes locais, avó da internet.
Não tínhamos celular.
Tínhamos discos de vinil e fitas K7. As fitas eram a ‘pirataria’ da época... os discos importados eram caros e copiávamos nas fitas.
‘Rede social’ era uma coisa estabelecida tacitamente e por afinidade, nem sequer tinha nome - normalmente na esquina da rua Afonso Schmidt, que apelidamos de “pólo”, tal como o pólo sul, com magnetismo próprio a nos impelir ao convívio em toda e qualquer hora de folga. Assim, sempre havia alguém por lá pra trocar uma idéia.
A gente trocava idéia, e de vez em quando, um baseado também.
Era amizade.
Livros e discos circulavam de mão em mão entre nós... e eu tinha uma carteirinha da biblioteca pública, podia pegar dois livros de cada vez: um pra mim e outro pro meu pai, líamos, trocávamos, líamos o segundo, e depois discutíamos o que cada um tinha pensado a respeito.
Eu tinha uma vaga idéia do que “ia ser quando crescer”.
E o futuro continua sendo, como ontem, algo em aberto... imprevisível, absolutamente cheio de possibilidades.
Ainda bem que isso não mudou.
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16 comentários:
É bom termos essas postagens falando sobre a história de cada um, e, com esta, nossa história coletiva. O que cada um passou, como cada um vivenciou o tempo passado vai se diferenciando de acordo com as mundividências, mas, ao mesmo tempo vai nos aproximando em pequenos detalhes como os vinis, as k7, Lennon...
Gostei muito: conte-nos mais histórias.
Deixa o tempo ir...
Aí a gente se reencontra e vê que o mesmo já é diferente. E tudo que tem de novo, é um reinvento.
LINDO, MÊ!
Tão terno e bem escrito .... e com a fotógrafa impecável que você é.
Eu tenho saudades desse tempo e sou criticada por isso. Parece que nessa época havia mais emoção. Como chorei quando Lennon foi assassinado. Hoje, não sei se me emocionariam ou se saberia quem é e a importância do impacto da imagem dele no mundo.
Excelente!
Beijos
Mirze
Marcelino,
agradeço pelo teu comentário... não sei se tenho muita vocação pra escrever sobre essas minhas "mundivivências" (adorei o termo!), pois além de não considerar minhas histórias pessoais muito interessantes, tenho uma certa reserva escorpionina pra me expôr além do campo das idéias e poesia :)
de toda forma, essa foto e mais as reflexões que tenho sido obrigada a fazer a respeito da nova geração, acabaram resultando no texto, que foi um pouco o resgate daquele ano longínquo.
abração!
Flavio, não sei onde você encontra tanta sabedoria em tão pouca idade... rsrs... que coisa certeira você disse aí!
Mirze, eu me lembro do dia em que Lennon foi morto, porque um amigo muito querido me ligou no trabalho, e não sabíamos o que dizer um ao outro diante da notícia... à noite fomos juntos assistir a uma homenagem feita por um grupo de rock local. Foi a última vez que vi esse meu amigo ou soube dele.
A vida tem dessas.
Eu também não sei dizer se algo hoje me convenceria de tamanho simbolismo e importância... as coisas estão mais fugazes, menos impactantes, até por hiperexposição.
Tem coisas lindas e ruins tanto lá atrás como hoje... pra mim o melhor dos mundos talvez ainda esteja por vir, e não sei se estarei nele.
Mas aquilo que não muda, o que permanece mesmo, são essas trocas como a de hoje, aqui, com vocês três.
obrigada linda,
beijos.
Vim oficializar a solicitação de uso desse belíssimo texto.
Você conseguiu o rítmo e a densidade dramática nas doses exatas !
Prosa envolvente. Você puxou o fio da meada. Maravilhosamente.
Bravos!
o labirinto
é aqui
o provisório abismo
este rosário de calêndulas ?
pálido pêndulo de asas
horizonte de estrelas donzelas
- calendários -
é aqui
o solitário pórfiro
este imaginário de istmos ?
dilúvio desvio de lírios
rios de urânios píncaros
- imagismos -
é aqui
o purgatório cósmico
este estrelário de brilhos ?
luxúria lunária de chumbo
solventre de escamas agônicas
- estribrilhos -
Que demais.... dei uma volta no tempo, vendo imagens, sentindo coisas esquecidas, mas que estavam lá.
Eu tinha um relógio deste.... era o supra-sumo.
Mercedes, o bonito disso é que embora queiramos algo sólido e perene, a verdadeira liberdade está em nada ser para sempre, em a todo momento podermos começar de novo, com novos sonhos....
uma fonte inesgotável de fazer e contar histórias
Sabrina, todos temos ;)
luiz gustavo, seja bem vindo.
gostei do poema :)
amiga do mnemosine... não sei se é a Valkiria ou a Betina :)
concordo com você cem por cento, o importante é poder recomeçar!
Neusa, tá oficializado então... rs
Já disse, pra mim é uma honra!
valeu ;)
obrigado por compartilhar.
drigão...
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