27/05/2011
a dois
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Hoje quando eu saía pra aula, me deparei com uma cena a cinco metros do meu portão... algo que não me deixou até agora, por isso escrevo.
Simples como um abraço.
Rapaz e moça, ambos com traços orientais pelo que pude ver meio de passagem (estava escuro e tive pudor de invadi-los com meu olhar mais próximo, nem tão fotógrafa assim)... estavam de pé um em frente ao outro, abraçados, absolutamente imóveis.
Eu fechei o portão, passei por eles... nem um gesto, nem um piscar de olhos, nem um movimento de mãos ou braços ou pés, nada. Ambos imersos naquele abraço que não me dizia se eram namorados, irmãos, amantes, amigos ou o quê.
Só sei o que não era: não era um cumprimento, não era uma saudação, não era uma comemoração, não era uma manifestação que externasse qualquer coisa efusiva... era uma pequena eternidade ali na “minha” calçada.
Cada um deles, por cima do ombro do outro, olhava para o vazio, sem piscar, sem sorrir, sem chorar. Rostos indescritivelmente serenos.
Cheguei até a esquina e me virei - ainda estavam lá, no mesmo abraço, estáticos.
Pessoas passavam, algumas bem perto, olhavam. Carros iam e vinham buzinando, misturando a happy hour com o início do horário noturno da faculdade. Nada os movia.
Permaneci mais um pouco olhando de longe, e por fim o meu próprio compromisso me chamou de volta à realidade e continuei meu caminho em direção ao metrô.
Por todo o trajeto fiquei pensando naquilo... pensando em que profundezas de sentimento estariam mergulhados aqueles dois para que tal qualidade de abraço pudesse acontecer, ali na rua, ainda que caísse um meteoro, ainda que o mundo esteja a merda que está.
Não sei exatamente como, mas, ao menos pra mim, eles ficarão como aquelas manchas de óleo que não saem mais da calçada: estarão ali fincados no abraço absoluto, na comunhão possível, toda vez que eu sair pelo portão afora.
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15 comentários:
Minha amiga, que lindo!
Abraço!
meu insone amigo-poeta... saudades!
abraço!
Que beleza, Mercedes! Coisas assim iluminam a vida. Transparece a eternidade, sim.
grande abraço pra você.
oi Ana,
sim... coisas assim, sem preço.
abração querida :)
Estas coisas emocionam! Se todos nós fôssemos assim, centrados no momento e no que estamos sentindo, acho que seria mais bomita a vida.
Aconteceu comigo algo parecido. Um casal se beijava tão apaixonadamente no meio da escada do metrô, que não quis pedir licença. Alguém atrás de mim, reclamou. Fiz-me de surda.
Essas cenas não se repetem.
Lindo seu quadro MÊ!
Beijos
Mirze
São essas coisas que deixam a merda do mundo um pouco melhor! Beleza de texto. Bj
Tão bonita a forma que vc descreveu esse momento que se eternizou em vc, mesmo que vc fosse só observadora. Nós que escrevemos vivemos de sentir isso que os olhos captam da vida alheia. Lembrou-me da crônica "Amor por entre o verde", do Vinicius de Mores que acho sensível e lindíssima.
Abraço!
Mirze, Drika, Lara... meu beijo pra vocês e grata por terem lido/sentido a cena ;)
muito belo.
:)
Gostei imenso da forma como relatou essa imagem... A forma como descreveu a situação e, como a descreveu.
Para ter uma opinião mais correcta sobre si, irei ver o resto do blog, mas, até aqui gostei imenso ! :) Parabéns pelo bom trabalho.
Atenciosamente,
O Pintor de Sonhos
Teu amor pela arte da fotografia se expressa a cada momento nas linhas e nas entrelinhas do que escreves. Veja só a imagem do casal cujo abraço não sai de tua íris: é poesia e é fotografia!
tomara Marcelino! porque as palavras estão fugindo cada vez mais, e só estão ficando as imagens... rs
eu adoro sua prosa... vc é uma diarista. de limpar os dias.
já se o mundo tá uma merda... não consigo saber! e não saber será uma merda? rs
rsrsrs... eu sou uma diarista, que di(a)ria!! adorei.
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