14 de fev de 2011

8º subdistrito

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Hoje, após 49 anos, precisei ir no cartório onde fui registrada ao nascer.
Misteriosamente, neste mundão inconstante e nesta metrópole tão mutável, o endereço é o mesmíssimo desde então.
Fiquei ali com a senha na mão, sentada num banco de madeira, imaginando o que se passaria na cabeça de meu pai naquele novembro de 1961... e todas as coisas inevitáveis que pensamos a respeito dessa papelada que de alguma forma atesta a nossa existência perante as “otoridades”.
Mas pensei principalmente naquele jeitão dele, com seus líquidos olhos tão azuis, e seu sorriso galego meio tímido, feliz por ter novamente uma criança pequena em casa depois de quase dez anos.
Eu fui sapeca, geniosa, questionadora... e mais tarde muito amiga dele.
Tivemos o tempo que a vida nos concedeu pra conviver, e ele continua sendo meu referencial de caráter e desprendimento.
Foi tão brando nesta segunda-feira imaginá-lo ali no pátio da velha casa, aos seus trinta e poucos anos, meio impaciente pra registrar sua menina...