2 de ago de 2010

perto do fogo

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Naturalmente todos se agrupam nesse canto da casa, lugares marcados ou não, sentados ou não. Ali o lugar de ser prosaico, comum, dizer um tudo e um nada, o que vier à cabeça. Não precisa ser brilhante, não precisa talvez nem ser pensante. Basta poder estar junto e intrometer-se, imiscuir-se. A intimidade se dá nos gestos, nas falas sem censura, no mastigar, no beber, no rir e no ficar sério.
As cadeiras proporcionam, bem ao gosto do dono da casa, a instabilidade necessária para que ninguém de fato possa ficar tempo suficiente acomodado no seu canto.
E a louça por lavar provê um desfile de gestos reveladores de pés tortos, mãos ágeis, braços ocupados, costas encurvadas de concessões ou retas e altivas, sinuosidades vivas de todo tipo, em cada bolha de espuma que vai se formando.
Os assuntos podem se repetir, mas sempre ganham nuances de novidade, extraindo detalhes que passaram desapercebidos na primeira vez, ou agregando personagens que vieram trazer novos cheiros à velha cozinha... como aquele amigo que chegou do planalto central e ficou alguns dias tocando violão entre cinzeiros lotados, e sua mulher de coxas grossas; ou o  primo saudosista que aparece para jantar; ou o velho professor solitário que telefona bêbado... todos estão presentes, e sobretudo os que jamais poderão voltar, porque há cadeiras instáveis também para eles, redivivos nas conversas.
Então, a pequena população continua a crescer, inclusive à espera de sorrisos recém inaugurados, por ora guardados em barrigas já bem conhecidas, mas já depositários das novas receitas que virão.
A mesa, uma espécie de altar de múltiplo uso, parece conter e centralizar das confidências mais existenciais ou afetivas, às piadas mais sujas.
Tudo ela comporta e tudo lhe importa.
Ao redor de um atávico fogo que hoje pode ser acionado com simples botão, continuamos a repartir o pão de nossas vidas, fatia por fatia oferecida na roda para que nos sintam o gosto, para que nos saibam a textura, para existirmos além de nós.



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