22 de set de 2008

Blá

Palavra é um bicho, organismo imaterial inoculado na gente ainda pequena... a minha filha com dez meses de idade sabia balbuciar 60 delas (eu contei!)
Não tenho nenhuma participação nessa proeza: ela que já veio assim, com o DNA espevitado.
Mas voltando ao tema: palavra é bicho-bactéria, precisa do meio de cultura, do contexto.
Palavra boa vem com o caldinho de cultura junto... aí vem vivinha, pulsando.
Palavra solta já chega meio morta, mesmo que seja bonita.
Por isso que inventaram a poesia, que é um caldo de cultura engrossado com maisena... a palavra chega toda cremosa, rebolando, uma gostosura.
Tem vezes que, pra escrever, você já está com a palavra-bactéria em mãos, mas precisa deixar no vidrinho fermentando pra ela se multiplicar. Se tirar antes ela não rende, é um miserê.
O perigo mesmo é quando o caldo entorna, ou fica estagnado de podridões e vírus que foram entrando lá por falta de cuidado... aí a palavra já chega doendo, machucando, fodendo tudo.
E não pense que é bobagem, porque palavra mal-dita dói pra cacete... e o ministério da saúde diz que inclusive dá nó na garganta.
Em compensação, quando vem banhada em caldinho doce... humm! Aí ela não entra mais pelo ouvido não... injeta direto no peito e se espalha feito água morna, vai escorrendo linfa adentro e curando até verminose: palavra boa cura solitária e solidão.
Palavra-carinho, palavra-coragem, palavra-tesão... ah, e tinha me esquecido também do palavrão: um ‘puta-que-pariu’ ocasional desentope as artérias.
E a palavra-sacação... essa é das boas, porque inocula um troço em você que vai dar choque nas sinapses num efeito dominó. Perigas você nunca mais ser o mesmo. Bom, né?



* decantado em Sergio Sônico