14 de mai de 2017

dia das mães



deixemos sobretudo que elas sejam mulheres livres.
livres da perfeição.
livres da 'vocação de mãe'.
livres para serem mulheres.
livres para nem serem mulheres.
livres para distribuir seu imenso amor também aos filhos que não são 'seus' e aos pais que não são 'seus'.
livres para amamentar a arte, a ciência, a cultura, a vida.
livres para envelhecerem.
livres.


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18 de abr de 2017

fish



cobertorzinho de sereia pra esquentar no frio, modas de sereia, sereia da globo, sereia pra cá e sereia pra lá.
sereia me dá muita aflição... porque não vive completa em nenhum dos mundos, nem em baixo d'água nem em cima.
em baixo é um ser bizarro pros outros peixes.
em cima é uma mulher que não tem auto suporte, não anda, não abre as pernas, não chuta o pau da barraca.
é a mulher mitológica que encanta pelo canto, o torso nu do acolhimento maternal, mas o sexo tapado por escamas.
cercada de tubarões.


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9 de abr de 2017

O sol nas bancas de revista




Era por volta de 1965/66... sei lá.
Eu tinha uns cinco anos e minha irmã mais velha, adolescente de seus 14 anos, se juntava com as amigas no portão de casa pra conversar coisas de adolescente.
Imaginem o que era o fenômeno Beatles nessa época para esse grupinho em particular.
Eu já ouvia uns vinis que ela tinha... come together.
Até eu já estava meio intrigada com aqueles caras.
E daí elas disseram que iriam VE-LOS!
‘Hoje à tarde a gente vai ver os Beatles’... what??
Eu quero ir junto.
Choro, apelo aos bons sentimentos, apelo à vara da infância e da juventude... nada.
Não vou ver os Beatles.
Horas de angústia mais tarde, me sentindo a própria vítima de discriminação etária, fico sabendo que elas haviam ido à banca de jornal pra ver novas revistas que chegaram com os 4 de Liverpool, era isso.

Quem lê tanta notícia? Eu vou... por que não? Por que não?


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3 de abr de 2017

Je t'aime arretado



Eu tinha uns 13 anos e no segundo semestre do ano letivo na escola apareceu aquele menino todo diferentão, arredio e mal encarado.
Acho que ninguém falava muito com ele por conta da cara de mau, e um rosto um tanto sofrido para aquela pouca idade.
Eu não lembro exatamente, mas acho que era Jaider o nome.
Ele vinha do interior da Bahia. O pessoal da minha sala se referia a ele como ‘baiano’ e não o chamavam pelo nome.
Eu era uma menina tímida, auto consciente demais pra minha idade, e sob certos aspectos era também um ETzinho naquela sala de aula.
Aí um dia, sem maiores explicações, o Jaider levou uma vitrolinha portátil e me chamou para ouvir um disco que ele havia trazido especialmente para mim, uau!
Tratava-se o compacto de Je t’aime moi non plus, do Serge Gainsbourg.
Cês conhecem.
Eu podia sentir o meu rosto ficando vermelho igual a uma barra de download sendo preenchida na tela do computador... a cada gemido que a Jane Birkin dava.
Não lembro como foi a conversa, minha memória remota não grava dados, mas grava sensações, e o constrangimento ficou registradíssimo nos neurônios.
Só sei que, de alguma forma, viramos amigos nesse dia.
Ele me convidou pra conhecer sua casa, pertinho de onde eu morava. Fui lá e conheci a mãe e o irmãozinho menor.
Lembro que fiquei encantada com o cuidado que ele tinha com o irmãozinho, mostrava uma doçura que não ficava visível na escola.
Fiquei sabendo que logo ele iria voltar para a Bahia com a família, porque seu pai o havia ‘prometido’ em noivado à filha de um outro fazendeiro compadre, e por lá as coisas ainda aconteciam desse jeito.
Ele parecia resignado com essa situação não obstante os meus protestos indignados.
Foi a primeira vez que eu me vi feminista, mas do avesso.
E depois de poucos meses, nunca mais o vi.
Hoje, agora pouco, tocou a música no rádio e lembrei de contar essa historinha.

Je t’aime, meu rei.


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apontamentos sobre a condição humana



estava lendo estatísticas assustadoras sobre suicídio de adolescentes... que fase crítica da vida é essa, né!
é aquela dor solitária porque de algum modo você descobre que a maior parte das perguntas importantes jamais terão respostas satisfatórias, mas ainda não percebeu concretamente que dá pra viver com isso.
alguns (muitos, pelo que vi) nem querem viver com isso.
nós, os sobreviventes, talvez tenhamos sido menos exigentes em favor de continuar as descobertas por aqui mais um tempo.
por tudo isso é importante ouvir o silêncio de um adolescente... é o primeiro grande silêncio da consciência.


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31 de mar de 2017

anjo



Qual é a mínima duração de uma convivência para ser lembrado?
Estava aqui cuidando de afazeres, escrevendo à mão (preciso de coisas anotadas sem necessidade de abrir o computador)... e de repente, depois de dois anos, pensei no Lucas.
Foi uma única noite numa conversa breve, ele já muito debilitado pela doença, mas com aquele humor-amor ainda inabalável.
Foi tudo o que pudemos ter em amizade.
Imenso, tanto quanto pode ser imenso o mínimo... o exíguo esbarrão numa calçada da vida.
E no entanto, só lembro que ele sorria na foto. E tinha uma dancinha esquisita que ele gravou em vídeo, pra mostrar que nerds também dançam.
Luquinhas.

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29 de mar de 2017

maquiagem



Eu, criada entre os 60 e 70 em meio à hiponguice, de tênis e jeans, até hoje me sinto ‘enganando as pessoas’ se tiver que me maquiar... não sei me maquiar.
Me viro razoavelmente se a coisa não for muito complexa.
Aí pela ocasião do lançamento do livro, sabendo da festa grandiosa, sentindo o peso da responsa de co-autoria, resolvi comprar um arsenal digno da Lady Gaga.
Voltei da loja com aquele um quilo e meio de potinhos e frascos.
Levei na mala.
Espalho tudo aquilo na pia do hotel, e começo pela base.
A coisa desandou.
Tudo terminado e pareço uma parede rebocada sem a espátula de pedreiro.
Não posso rir que vai craquelar, imagina eu sem rir.
Se chorar também fode todo esse rímel, kajal, escambáu.
Sinistro.
Estou em cima da hora da festa e não coloquei a roupa ainda.
Volto à pia, meto água e sabão (aquele sabonetinho minúsculo de hotel, que parece uma bolacha de maizena).
O rímel, kajal, escambáu não sai... é à prova dágua (ainda estou com ele três dias depois!)
Mas o resto sai, e recomeço minimalista. Deu certo.
Só estou enganando as pessoas sobre mim uns dez por cento: aceitável pra 55 anos.
Na festa chorei pouco, ri muito, nenhuma catástrofe aconteceu.
Que alívio.


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18 de mar de 2017

felinos



o negócio é sério, foram sete ou oito gatos de rua em poucos dias.
eu chamo... e eles vem e ficam alguns minutos de boas, deixam fazer cafuné, a gente conversa em miauês.
não sei do que falamos exatamente.
acho que são papos-cabeça, uma tangente inter-espécies, irmão sol, irmã lua... algo assim, algo assis.

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12 de mar de 2017

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Nascer mulher é a experiência mais fantástica e completa que se pode ter nesta vida, neste planeta.
Apenas isso que eu queria dizer hoje.

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6 de mar de 2017

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DIAS MULHERES VIRÃO!


1 de mar de 2017

Dar nome aos bois é terapêutico



Quanto mais leio a respeito do machismo estrutural, menor vai ficando a distância entre aquilo que eu experienciei durante toda a vida, sendo mulher, daquilo que efetivamente outras mulheres experienciaram.

Isso é interessante porque valida o sentimento da gente, tira o véu fantasmagórico que encobre certos mal-estares que a gente não tinha como processar dentro de si e também não tinha nome pra dar, e que por isso talvez passassem batidos sem a oportunidade de questionamento.

Não que o nome seja importante em si, como fim, mas é importante como parte do processo de reconhecimento de existência de comportamentos arraigados.

Além da sensação de 'desvendamento' daquilo que incomoda e sempre incomodou, é também a oportunidade de observação mais atenta do entorno, dos homens e mulheres com quem convivo.
Minha percepção nitidamente apurou, como se ao ouvir alguém ou ler um texto, eu esteja conseguindo enxergar partes do chassis por baixo da lataria reluzente.

Isso pode ser decepcionante, mas também é libertador.

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11 de fev de 2017

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Existe quem use como estratégia de vida a desqualificação contínua do outro, de modo que, por exclusão, seja considerado superior sem precisar dize-lo.
E existe quem não queira perder tempo com estratégias, mas sim com vida, porque sabe que o outro é só mais uma das formas de ser si mesmo.


4 de fev de 2017

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o ego, esse abestado que parece um gato grande querendo caber na caixa craniana.


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1 de fev de 2017

Vick Vaporub


Estou nessa de resgatar histórias que não interessam a ninguém, mas...

Lá pelos idos de antigamente, na minha infância, não havia tanto remédio específico pra tudo que era mazela das crianças em fase de crescimento, como tem hoje em dia.

E uma outra coisa: hoje parece que sobraram poucas medicações que não sejam aplicadas via oral, em forma de comprimidos ou cápsulas. Antes não era bem assim, a gente tinha uns xaropes cor de rosa, umas pomadas básicas, e os temíveis supositórios também (minha mente seletiva apagou qualquer lembrança destes últimos).

Sendo assim, quando vinha um chiadinho no peito, uma gripe com tosse noturna, aquela coisa que todo mundo já passou... a mãe costumava passar o tal do Vick Vaporub na área do peito, antes de deitarmos na cama.

Eu acho que ele ainda existe por aí, mas talvez não seja a mesma fórmula que era, ou mesmo que for, tenho certeza que não era o Vick da mãe. O Vick da mãe era único.

O Vick da mãe me deu a primeira e talvez mais profunda experiência transcendente.

Eu devia ter uns oito anos. Era noitinha, hora de ir pra cama, eu tossia. Ela veio como sempre, passar o Vick no peito e imediatamente me vestir uma camisetinha branca de algodão com cheiro de sabão de côco, pra que eu não tomasse friagem depois da pomada. Eu deitada na cama, estava olhando ela fazer aquilo, meio distraída, meio prestando atenção nos movimentos. Aí aconteceu uma coisa, eu vou tentar minimamente descrever porque não é fácil. Enquanto ela passava aquele Vick eu sentia algo inexplicável entrando tão poderoso no meu peito infantil, com suavidade mas de um jeito tão intenso que me inundou, e me emocionei. Comecei a chorar de mansinho, ela preocupada perguntou se doía, eu disse não. Eu chorava porque tinha sido submersa em amor demais de uma só vez, e eu nem sabia que aquilo, aquela potência quase física, existia.

Há duas semanas atrás tive uma experiência semelhante. E como antes, foi tremendamente transformador.

Deve ser por isso que o senso comum, a sabedoria popular, tem todo um gestual e um vocabulário que envolve o coração, o peito, como morada dos afetos num sentido metafórico. Eu acho que mais que metafórico, é um local físico/energético onde cada célula armazena um tipo de ressonância com esses sentimentos, mas isso fica pro dr. Wilhelm Reich discorrer aos interessados.

O que eu sei é que, em algum lugar de mim, há tempos esquecidas, festejaram todas as moléculas canforadas nessa hora. 


16 de jan de 2017

Sobre casas e predadores da utopia






Por conta de um sonho que tive hoje, lembrei de um episódio da infância...

Eram meados dos 70 e lá vai pedrada, morávamos no mesmo bairro onde tínhamos nascido eu e a minha irmã mais nova, e onde tinha praticamente sido criada minha irmã mais velha (vinda com seis meses de idade no navio junto com minha mãe, saindo de uma Espanha empobrecida pela ditadura franquista que mais cedo lhe roubara também os estudos durante a guerra civil. Meu pai viera primeiro, talvez alguns meses antes. Mas isso é outra história)... o que se passou e que vou contar foi mesmo comigo já pré adolescente, em meados dos 70 e talvez sob os auspícios do então proclamado "milagre brasileiro".

Meu pai tinha uma pequena fábrica de fornos para esmaltação de azulejos, e apesar do talento nato para a criação e desenho dos projetos, era sofrível como administrador e poucas vezes tivemos condições financeiras que nos permitissem ter algo mais do que tinha qualquer um de seus poucos funcionários. Já havíamos tido uma casa própria quando eu era bem pequena, que depois foi vendida junto ao galpão da fábrica para sair de um desses sufocos peródicos; víviamos de aluguel num sobrado minúsculo que era pago com sacrifícios, para desespero de minha mãe, cujos valores de estabilidade e segurança eram profundamente arraigados em sua formação. Seu grande sonho era ter de novo uma casa. E eu, que precisava montar todas as noites minha cama de "campanha" pra poder dormir e desmontá-la pelas manhãs para que o quarto pequeno e partilhado tivesse livre trânsito, também comungava desse sonho.

A fábrica havia se mudado para uma região periférica e erma da cidade, que hoje é outro município inclusive. Havia incentivos do Estado para que fossem criadas empresas nesse local e talvez meu pai tenha aproveitado isso. Pouco sei desses detalhes.

E assim a gente vivia, no aperto, entre um susto e outro, entre um aluguel e outro, entre montar e desmontar a cama todo dia.

Então houve uma época de vacas mais gordinhas, essa da minha pré adolescência, e num dia de domingo meu pai colocou todas nós, suas 4 mulheres, no carro e nos levou a um lugar sem dizer onde era. Fomos lá para perto de onde era a fábrica, uma ruazinha isolada, de terra batida, com vários terrenos baldios em volta, sem iluminção pública. Parou em frente a uma casa linda, recém construída e vazia, com um jardim todo feito em estilo paisagístico na frente. Minha mãe perguntou o que era, e ele finalmente disse: havia construído a casa durante alguns meses em segredo, e estava pronta para morarmos, era sua surpresa.

Entramos, olhamos tudo, eu e minha irmã mais nova já fazendo planos de onde dormiríamos, onde teríamos nossos brinquedos, corríamos pelos cômodos como molecas.

E finalmente voltamos para o carro, onde minha mãe muito séria disse a meu pai que jamais, nunca, never, nem fodendo moraria ali.

Ela que já havia sido desenraizada até o talo uma vez, saindo de seu país, deixando uma vida para trás, todas as suas referências, sua língua, tudo... ela que sabia o que é ser uma mulher num mundo de homens e que tinha 3 filhas mulheres para proteger como loba que era... ela que havia conseguido a duras penas, com seu portunhol, a fincar novas raízes e novos amigos no bairro onde sempre vivemos... ela não queria `pegar outro navio`, e pronto, estávamos conversados.

Foi uma desolação naquele carro. Voltamos o caminho todo sem uma palavra, meu pai dirigia calado.
Quando chegamos novamente ao sobradinho, minha mãe e irmãs desceram do carro e entraram em casa. Meu pai, calado, ficou sentado na direção. Eu, amiga dele de tantas conversas, fiquei ali também, passei para o banco da frente ao seu lado. Esperei uns minutos e depois desfiei um rosário de impropérios contra minha mãe, achando aquilo por demais injusto com ele.

E para meu supremo espanto, ele que jamais na vida havia me dado uma bronca sequer, ou erguido a voz comigo, me situou de tal forma que nunca vou esquecer. Não lembro de suas exatas palavras ali, mas ele saiu de sua imensa decepção pra me dizer que eu não tinha o direito de falar aquelas coisas sobre ela, que ela tinha suas razões e que essas razões envolviam inclusive o meu bem estar, e que ele embora chateado iria respeitar a decisão dela acima de tudo, porque era dessa forma que eles dois agiam um com o outro desde que se casaram. Era a cumplicidade deles para a vida.

Eu engoli em seco. Pedi desculpas a ele. Mas embora ela não tenha me escutado nos impropérios, hoje entendo que devia desculpas a ela.

Os dois se foram há muitos anos, sem nunca mais termos tido uma chance de comprar a tal casa própria.

E hoje eu sonhei com algo um pouco semelhante, guardadas as devidas proporções, mas que me reafirmou que talvez o meu maior valor - a liberdade - eu afinal não tenha herdado dele ou apenas dele, que se aventurou na América, mas também e principalmente dela.

A coragem de matar os tigres que estão cambaleantes pra deixar os sobreviventes livres, as perdas a que nos permitimos para salvar as nossas partes sãs.

É disso que trata esta pequena história e é disso que trata o poema de Lau Siqueira, ao menos para mim:

dentro de mim
morreram muitos tigres
os que ficaram
no entanto
são livres`

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3 de jan de 2017

Bugs Don't Buzz




eu vinha hoje com aqueles headphones grandes parecendo o penteado da princesa Lea dentro do avião e no que o piloto anunciou o pouso em instantes, entrou essa faixa do majical cloudz tocando toda nazorelha.
eu olho pela janelinha e vejo aquela são paulo monstra lá em baixo... aquela louca bandeirante cangaceira japonesa meia aliche meia portuguesa são paulo lá em baixo... aquela dragona soltando fumaça poluída logo acima do couro curtido lá em baixo... aquela menina de short de top e tatoo andando de bike e plantando uma árvore lá em baixo... aquele criolo caetano de augusto dos campos elíseos tom zé lá em baixo... e a comissária de bordo nem viu eu me arrebatar.





https://youtu.be/7CLrDPtFjPI


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27 de nov de 2016

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curiosidade é privilégio de quem não tem certezas.


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15 de nov de 2016

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dois dos meninos que ficam no farol fazendo malabares estavam dentro do supermercado e me chamaram:
- tia, paga um refri pra nós?
- pode ser suco natural em vez de refri?
- pode
- então tá.

eu sem chão... e eles, equilibristas.

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8 de nov de 2016

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a fotografia é uma desculpa pra sair da própria bolha... isso é tão legal! Mas quem sai, o faria mesmo sem ela. E às vezes tendo essa desculpa há os que não saem. Tudo depende sempre de quão enorme você quer que o mundo seja.


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30 de out de 2016

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pintando a sala de branco
caiando a vida: uma teia
em cada canto.


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