16 de jan de 2017

Sobre casas e predadores da utopia






Por conta de um sonho que tive hoje, lembrei de um episódio da infância...

Eram meados dos 70 e lá vai pedrada, morávamos no mesmo bairro onde tínhamos nascido eu e a minha irmã mais nova, e onde tinha praticamente sido criada minha irmã mais velha (vinda com seis meses de idade no navio junto com minha mãe, saindo de uma Espanha empobrecida pela ditadura franquista que mais cedo lhe roubara também os estudos durante a guerra civil. Meu pai viera primeiro, talvez alguns meses antes. Mas isso é outra história)... o que se passou e que vou contar foi mesmo comigo já pré adolescente, em meados dos 70 e talvez sob os auspícios do então proclamado "milagre brasileiro".

Meu pai tinha uma pequena fábrica de fornos para esmaltação de azulejos, e apesar do talento nato para a criação e desenho dos projetos, era sofrível como administrador e poucas vezes tivemos condições financeiras que nos permitissem ter algo mais do que tinha qualquer um de seus poucos funcionários. Já havíamos tido uma casa própria quando eu era bem pequena, que depois foi vendida junto ao galpão da fábrica para sair de um desses sufocos peródicos; víviamos de aluguel num sobrado minúsculo que era pago com sacrifícios, para desespero de minha mãe, cujos valores de estabilidade e segurança eram profundamente arraigados em sua formação. Seu grande sonho era ter de novo uma casa. E eu, que precisava montar todas as noites minha cama de "campanha" pra poder dormir e desmontá-la pelas manhãs para que o quarto pequeno e partilhado tivesse livre trânsito, também comungava desse sonho.

A fábrica havia se mudado para uma região periférica e erma da cidade, que hoje é outro município inclusive. Havia incentivos do Estado para que fossem criadas empresas nesse local e talvez meu pai tenha aproveitado isso. Pouco sei desses detalhes.

E assim a gente vivia, no aperto, entre um susto e outro, entre um aluguel e outro, entre montar e desmontar a cama todo dia.

Então houve uma época de vacas mais gordinhas, essa da minha pré adolescência, e num dia de domingo meu pai colocou todas nós, suas 4 mulheres, no carro e nos levou a um lugar sem dizer onde era. Fomos lá para perto de onde era a fábrica, uma ruazinha isolada, de terra batida, com vários terrenos baldios em volta, sem iluminção pública. Parou em frente a uma casa linda, recém construída e vazia, com um jardim todo feito em estilo paisagístico na frente. Minha mãe perguntou o que era, e ele finalmente disse: havia construído a casa durante alguns meses em segredo, e estava pronta para morarmos, era sua surpresa.

Entramos, olhamos tudo, eu e minha irmã mais nova já fazendo planos de onde dormiríamos, onde teríamos nossos brinquedos, corríamos pelos cômodos como molecas.

E finalmente voltamos para o carro, onde minha mãe muito séria disse a meu pai que jamais, nunca, never, nem fodendo moraria ali.

Ela que já havia sido desenraizada até o talo uma vez, saindo de seu país, deixando uma vida para trás, todas as suas referências, sua língua, tudo... ela que sabia o que é ser uma mulher num mundo de homens e que tinha 3 filhas mulheres para proteger como loba que era... ela que havia conseguido a duras penas, com seu portunhol, a fincar novas raízes e novos amigos no bairro onde sempre vivemos... ela não queria `pegar outro navio`, e pronto, estávamos conversados.

Foi uma desolação naquele carro. Voltamos o caminho todo sem uma palavra, meu pai dirigia calado.
Quando chegamos novamente ao sobradinho, minha mãe e irmãs desceram do carro e entraram em casa. Meu pai, calado, ficou sentado na direção. Eu, amiga dele de tantas conversas, fiquei ali também, passei para o banco da frente ao seu lado. Esperei uns minutos e depois desfiei um rosário de impropérios contra minha mãe, achando aquilo por demais injusto com ele.

E para meu supremo espanto, ele que jamais na vida havia me dado uma bronca sequer, ou erguido a voz comigo, me situou de tal forma que nunca vou esquecer. Não lembro de suas exatas palavras ali, mas ele saiu de sua imensa decepção pra me dizer que eu não tinha o direito de falar aquelas coisas sobre ela, que ela tinha suas razões e que essas razões envolviam inclusive o meu bem estar, e que ele embora chateado iria respeitar a decisão dela acima de tudo, porque era dessa forma que eles dois agiam um com o outro desde que se casaram. Era a cumplicidade deles para a vida.

Eu engoli em seco. Pedi desculpas a ele. Mas embora ela não tenha me escutado nos impropérios, hoje entendo que devia desculpas a ela.

Os dois se foram há muitos anos, sem nunca mais termos tido uma chance de comprar a tal casa própria.

E hoje eu sonhei com algo um pouco semelhante, guardadas as devidas proporções, mas que me reafirmou que talvez o meu maior valor - a liberdade - eu afinal não tenha herdado dele ou apenas dele, que se aventurou na América, mas também e principalmente dela.

A coragem de matar os tigres que estão cambaleantes pra deixar os sobreviventes livres, as perdas a que nos permitimos para salvar as nossas partes sãs.

É disso que trata esta pequena história e é disso que trata o poema de Lau Siqueira, ao menos para mim:

dentro de mim
morreram muitos tigres
os que ficaram
no entanto
são livres`

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3 de jan de 2017

Bugs Don't Buzz




eu vinha hoje com aqueles headphones grandes parecendo o penteado da princesa Lea dentro do avião e no que o piloto anunciou o pouso em instantes, entrou essa faixa do majical cloudz tocando toda nazorelha.
eu olho pela janelinha e vejo aquela são paulo monstra lá em baixo... aquela louca bandeirante cangaceira japonesa meia aliche meia portuguesa são paulo lá em baixo... aquela dragona soltando fumaça poluída logo acima do couro curtido lá em baixo... aquela menina de short de top e tatoo andando de bike e plantando uma árvore lá em baixo... aquele criolo caetano de augusto dos campos elíseos tom zé lá em baixo... e a comissária de bordo nem viu eu me arrebatar.





https://youtu.be/7CLrDPtFjPI


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27 de nov de 2016

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curiosidade é privilégio de quem não tem certezas.


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15 de nov de 2016

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dois dos meninos que ficam no farol fazendo malabares estavam dentro do supermercado e me chamaram:
- tia, paga um refri pra nós?
- pode ser suco natural em vez de refri?
- pode
- então tá.

eu sem chão... e eles, equilibristas.

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8 de nov de 2016

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a fotografia é uma desculpa pra sair da própria bolha... isso é tão legal! Mas quem sai, o faria mesmo sem ela. E às vezes tendo essa desculpa há os que não saem. Tudo depende sempre de quão enorme você quer que o mundo seja.


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30 de out de 2016

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pintando a sala de branco
caiando a vida: uma teia
em cada canto.


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13 de mai de 2016

noite de São Bartolomeu



anticonstitucionalissimamente
é um monstro polissílabo que saiu do dicionário e veio sentar no sofá, se apossou do controle remoto e sintonizou a vida no JN.

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25 de ago de 2015




Entrei no metrô e olhando em volta, só havia o banco preferencial vazio... na falta de alguém mais habilitado a se sentar nele, esparramei meus 53 anos todos bem acomodados ali... e fiquei olhando pela janela a cidade cinzenta neste dia frio, estranhamente quieto, depois de duas semanas de sol fora de época.
Depois de duas estações, entrou uma senhora e me levantei para chamá-la a ocupar o assento. Ela declinou, insisti, ela declinou novamente com um sorriso serenamente irresistível. Usava uma saia florida vermelha pouco abaixo dos joelhos, sandálias havaianas nos pés, uma blusa de lã cor de tijolo com as mangas arregaçadas até os cotovelos, e carregava uma pequena sacola. Tinha os cabelos grisalhos à altura da nuca, presos por uma tiara preta.
Não sei dizer o que nela lembrava minha mãe... se a pele curtida pelos anos, se era apenas o olhar de quem já viu o bastante, ou se era aquela saia cheia de flores que desafiava toda a barbárie do mundo apenas por existir daquele jeito solto e leve, apesar do frio.
Fiquei olhando para ela furtivamente, quando um ou outro passageiro se afastava dando uma brecha entre nós duas. A lembrança da mãe apertando, e quando vi eu apertava a alça da bolsa sem perceber.
Depois de quatro estações, ela se moveu para sair do vagão... passou por mim e parou, segurou meu braço com firmeza mas ao mesmo tempo com carinho, e sorriu. Eu sorri de volta, segurei o braço dela com a mesma firmeza e ficamos por um instante interminável assim.
Ela saiu do vagão, me deixando esse presente. E era tudo.


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6 de mai de 2015

Feira



Depois de umas tres décadas pelo menos, fui fazer a feira.
Descobri uma feira perto de casa... ainda bem que as feiras livres em SP ainda não acabaram.
Lá fui eu, desta vez sem a mãe me puxando pra que eu não sumisse na barraca do coco ralado.
Sim, ainda tem coco ralado na feira e comprei mais do que poderei comer nos próximos dias, meio que tirando o atraso dos anos sintéticos da metrópole.
Mas o feirante me disse que posso congelar.
Todos eles dão bom dia... veja você, eles dão bom dia! E ganhei 2 maçãs verdes a mais e 4 limões galegos, pra "virar freguesa". Eles conhecem a fidelização de cliente desde os tempos imemoriais.
Tinha tanta fruta, verdura e legume... tinha uma barraca com especiarias nordestinas. Salve o nordeste que veio pra cá nos redimir da sizudez produtiva.
Aquela mistura de cheiros e vida... o vendedor de maçãs me diz que "o produtor garantiu a "suculência, senhora"... e os abacates estão no ponto de comer.
Aqui sentada em casa, olho em cima do balcão pra todas essas cores que foto nenhuma conseguirá captar, e quase ouço a mãe começando a fazer o almoço e cantando um bolero, de avental na cintura, e reclamando que o preço dos tomates está pela hora da morte.


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7 de abr de 2015

todas as listas




100 filmes pra ver antes de morrer.
20 lugares paradisíacos para viajar.
15 homens estilosos que você precisa seguir no instagram.
45 maneiras de melhorar seu currículo.
18 receitas que emagrecem em 3 dias.
5 exercícios para os glúteos.
10 mandamentos.
7 pecados capitais.
1 polegar opositor.
1/2 boca.
nenhum cérebro.


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20 de ago de 2014

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há tanta coisa acontecendo a todo momento, são notícias ininterruptas... flores que se abrem do botão e imediatamente começam a murchar, como se fosse um jardim de fábula em time-lapse.

algumas coisas você calcula, intui, que sejam importantes demais para passarem batido... e tenta agarrar o tempo intangível pra se deter sobre elas.

mas são muitas, são tantas.
alguém tomará conta disso, você pensa.
e segue... e prossegue.

e no meio do dia, ao meio-dia, nesse meio de inverno, o sol a pino te cega - com o conforto de uma estrela que é tão nossa - e você se detém por mais tempo... porque é gostoso, porque é da vida, e a vida te detém nessa senciência.

e em algum momento no meio da tarde, quando a terra gira em seu eixo e dá as costas para o sol, quando o vento gelado de novo te percorre a espinha, você por um segundo se lembra: Gaza.



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27 de jun de 2014

minha maleta





E eu queria poder dizer a ela que finalmente encontrei (encontramos) aquela maleta mexicana... e com ela todas as imagens que me faltaram e que eu tentava construir, sem referências reais e custosamente, em minha imaginação de criança.
Tuas histórias ganharam agora nova dimensão, mãe: a dimensão de um povo inteiro, a dimensão da carne, do medo e da coragem, a dimensão do cotidiano que não se cansa de viver.
Encontrei minha maleta mexicana com as fotos de tua guerra... e olha: virei fotógrafa como esses três malucos que registraram tudo para mim.
Agora eu sei, eu vejo, algo do que você viu... e te reencontro, com uma saudade espremida entre a minha compreensão maior e o meu eterno desejo pelo teu colo à prova de bombas.
Tenho a maleta.

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17 de jun de 2014

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da rasura:
quero a parte que me acabe.



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11 de mai de 2014

para ela



o maior desafio. amor responsável. a contínua vontade de ser alguém em quem se possa confiar e recorrer. o contínuo aprender com quem se deveria ensinar. os desacertos. as dúvidas. lançar uma seta. a torcida mais ferrenha. a comemoração mais vibrante. a corujice mais deslavada. a vida em vida propagada. como se a gente estivesse povoando todo o universo.  


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12 de abr de 2014

nós, gatos.





Era por volta das 8 hs da noite. Chovia o suficiente pra chegar na plataforma do metrô com os tênis ligeiramente molhados, mas a mochila intacta protegida pelo guarda-chuva. 
Eu sempre ando com a cibershot nela ou na bolsa de mão, porque em algum momento implantou-se no meu cérebro que eu definitivamente não vou usar a câmera do celular. Não sei por quê. Já era assim antes de eu ser fotógrafa, e só piorou.
Lá de cima, olhei para a chuva sobre os carros apressados - todo paulistano quer, mais do que tudo, chegar em casa... e tinha aquelas manchas novas no asfalto, talvez resultantes da tinta derramada quando o graffiti do muro divisório da igreja foi pintado.
Um pedaço apenas do meu pedaço. Aí eu cresci e conheço cada palmo. 
Nesse trecho da plataforma, insistentemente, eu tenho traçado rotas há anos.
E apesar de tudo, de hoje, da pressa, das notícias, do mundo... eu tirei a camerazinha da mochila e cliquei. 
Porque à noite os gatos são tão pardos, que eu quase consegui ver as minhas sete vidas entre os faróis.

19 de mar de 2014

alguns poemas meus na Germina


Agradeço à Silvana Guimarães pelo convite carinhoso e pela edição sempre primorosa dessa revista Cultural de primeira qualidade.

Link para a publicação: http://www.germinaliteratura.com.br/2014/mercedes_lorenzo.htm

Link geral da Germina desta edição: http://www.germinaliteratura.com.br/index1.htm

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