27 de nov de 2016

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curiosidade é privilégio de quem não tem certezas.


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15 de nov de 2016

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dois dos meninos que ficam no farol fazendo malabares estavam dentro do supermercado e me chamaram:
- tia, paga um refri pra nós?
- pode ser suco natural em vez de refri?
- pode
- então tá.

eu sem chão... e eles, equilibristas.

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8 de nov de 2016

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a fotografia é uma desculpa pra sair da própria bolha... isso é tão legal! Mas quem sai, o faria mesmo sem ela. E às vezes tendo essa desculpa há os que não saem. Tudo depende sempre de quão enorme você quer que o mundo seja.


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30 de out de 2016

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pintando a sala de branco
caiando a vida: uma teia
em cada canto.


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13 de mai de 2016

noite de São Bartolomeu



anticonstitucionalissimamente
é um monstro polissílabo que saiu do dicionário e veio sentar no sofá, se apossou do controle remoto e sintonizou a vida no JN.

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25 de ago de 2015




Entrei no metrô e olhando em volta, só havia o banco preferencial vazio... na falta de alguém mais habilitado a se sentar nele, esparramei meus 53 anos todos bem acomodados ali... e fiquei olhando pela janela a cidade cinzenta neste dia frio, estranhamente quieto, depois de duas semanas de sol fora de época.
Depois de duas estações, entrou uma senhora e me levantei para chamá-la a ocupar o assento. Ela declinou, insisti, ela declinou novamente com um sorriso serenamente irresistível. Usava uma saia florida vermelha pouco abaixo dos joelhos, sandálias havaianas nos pés, uma blusa de lã cor de tijolo com as mangas arregaçadas até os cotovelos, e carregava uma pequena sacola. Tinha os cabelos grisalhos à altura da nuca, presos por uma tiara preta.
Não sei dizer o que nela lembrava minha mãe... se a pele curtida pelos anos, se era apenas o olhar de quem já viu o bastante, ou se era aquela saia cheia de flores que desafiava toda a barbárie do mundo apenas por existir daquele jeito solto e leve, apesar do frio.
Fiquei olhando para ela furtivamente, quando um ou outro passageiro se afastava dando uma brecha entre nós duas. A lembrança da mãe apertando, e quando vi eu apertava a alça da bolsa sem perceber.
Depois de quatro estações, ela se moveu para sair do vagão... passou por mim e parou, segurou meu braço com firmeza mas ao mesmo tempo com carinho, e sorriu. Eu sorri de volta, segurei o braço dela com a mesma firmeza e ficamos por um instante interminável assim.
Ela saiu do vagão, me deixando esse presente. E era tudo.


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6 de mai de 2015

Feira



Depois de umas tres décadas pelo menos, fui fazer a feira.
Descobri uma feira perto de casa... ainda bem que as feiras livres em SP ainda não acabaram.
Lá fui eu, desta vez sem a mãe me puxando pra que eu não sumisse na barraca do coco ralado.
Sim, ainda tem coco ralado na feira e comprei mais do que poderei comer nos próximos dias, meio que tirando o atraso dos anos sintéticos da metrópole.
Mas o feirante me disse que posso congelar.
Todos eles dão bom dia... veja você, eles dão bom dia! E ganhei 2 maçãs verdes a mais e 4 limões galegos, pra "virar freguesa". Eles conhecem a fidelização de cliente desde os tempos imemoriais.
Tinha tanta fruta, verdura e legume... tinha uma barraca com especiarias nordestinas. Salve o nordeste que veio pra cá nos redimir da sizudez produtiva.
Aquela mistura de cheiros e vida... o vendedor de maçãs me diz que "o produtor garantiu a "suculência, senhora"... e os abacates estão no ponto de comer.
Aqui sentada em casa, olho em cima do balcão pra todas essas cores que foto nenhuma conseguirá captar, e quase ouço a mãe começando a fazer o almoço e cantando um bolero, de avental na cintura, e reclamando que o preço dos tomates está pela hora da morte.


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7 de abr de 2015

todas as listas




100 filmes pra ver antes de morrer.
20 lugares paradisíacos para viajar.
15 homens estilosos que você precisa seguir no instagram.
45 maneiras de melhorar seu currículo.
18 receitas que emagrecem em 3 dias.
5 exercícios para os glúteos.
10 mandamentos.
7 pecados capitais.
1 polegar opositor.
1/2 boca.
nenhum cérebro.


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20 de ago de 2014

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há tanta coisa acontecendo a todo momento, são notícias ininterruptas... flores que se abrem do botão e imediatamente começam a murchar, como se fosse um jardim de fábula em time-lapse.

algumas coisas você calcula, intui, que sejam importantes demais para passarem batido... e tenta agarrar o tempo intangível pra se deter sobre elas.

mas são muitas, são tantas.
alguém tomará conta disso, você pensa.
e segue... e prossegue.

e no meio do dia, ao meio-dia, nesse meio de inverno, o sol a pino te cega - com o conforto de uma estrela que é tão nossa - e você se detém por mais tempo... porque é gostoso, porque é da vida, e a vida te detém nessa senciência.

e em algum momento no meio da tarde, quando a terra gira em seu eixo e dá as costas para o sol, quando o vento gelado de novo te percorre a espinha, você por um segundo se lembra: Gaza.



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27 de jun de 2014

minha maleta





E eu queria poder dizer a ela que finalmente encontrei (encontramos) aquela maleta mexicana... e com ela todas as imagens que me faltaram e que eu tentava construir, sem referências reais e custosamente, em minha imaginação de criança.
Tuas histórias ganharam agora nova dimensão, mãe: a dimensão de um povo inteiro, a dimensão da carne, do medo e da coragem, a dimensão do cotidiano que não se cansa de viver.
Encontrei minha maleta mexicana com as fotos de tua guerra... e olha: virei fotógrafa como esses três malucos que registraram tudo para mim.
Agora eu sei, eu vejo, algo do que você viu... e te reencontro, com uma saudade espremida entre a minha compreensão maior e o meu eterno desejo pelo teu colo à prova de bombas.
Tenho a maleta.

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17 de jun de 2014

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da rasura:
quero a parte que me acabe.



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11 de mai de 2014

para ela



o maior desafio. amor responsável. a contínua vontade de ser alguém em quem se possa confiar e recorrer. o contínuo aprender com quem se deveria ensinar. os desacertos. as dúvidas. lançar uma seta. a torcida mais ferrenha. a comemoração mais vibrante. a corujice mais deslavada. a vida em vida propagada. como se a gente estivesse povoando todo o universo.  


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12 de abr de 2014

nós, gatos.





Era por volta das 8 hs da noite. Chovia o suficiente pra chegar na plataforma do metrô com os tênis ligeiramente molhados, mas a mochila intacta protegida pelo guarda-chuva. 
Eu sempre ando com a cibershot nela ou na bolsa de mão, porque em algum momento implantou-se no meu cérebro que eu definitivamente não vou usar a câmera do celular. Não sei por quê. Já era assim antes de eu ser fotógrafa, e só piorou.
Lá de cima, olhei para a chuva sobre os carros apressados - todo paulistano quer, mais do que tudo, chegar em casa... e tinha aquelas manchas novas no asfalto, talvez resultantes da tinta derramada quando o graffiti do muro divisório da igreja foi pintado.
Um pedaço apenas do meu pedaço. Aí eu cresci e conheço cada palmo. 
Nesse trecho da plataforma, insistentemente, eu tenho traçado rotas há anos.
E apesar de tudo, de hoje, da pressa, das notícias, do mundo... eu tirei a camerazinha da mochila e cliquei. 
Porque à noite os gatos são tão pardos, que eu quase consegui ver as minhas sete vidas entre os faróis.

19 de mar de 2014

alguns poemas meus na Germina


Agradeço à Silvana Guimarães pelo convite carinhoso e pela edição sempre primorosa dessa revista Cultural de primeira qualidade.

Link para a publicação: http://www.germinaliteratura.com.br/2014/mercedes_lorenzo.htm

Link geral da Germina desta edição: http://www.germinaliteratura.com.br/index1.htm

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12 de mar de 2014

Paulette, André e minhas alpargatas de corda



Brassaï • Paulette et André, 1949


Faz um tempinho que me deparei com as fotos comoventes de Robert Capa na Guerra Civil Espanhola... e de certa forma, procuro nelas os vestígios de uma história pessoal, cuja protagonista foi minha mãe, que a viveu na pele em Barcelona.
Entre tantas coisas que observo nas fotos de civis, no dia a dia da guerra, uma me chamou a atenção pelo detalhe inusitado e pelas recordações que evocou da minha própria adolescência.
Hoje ela voltou singelamente quando vi esta foto de Brassaï, de 1949 (uma Europa ainda sob o impacto do final da Segunda Guerra Mundial), com duas crianças maravilhosamente flagradas em uma linguagem corporal que diz muito! Paulette e André.
André usa umas alpargatas de tecido lonado e solado de corda... são duas crianças lindas, porém visivelmente frutos de uma Europa que ainda tentava custosamente se reerguer da devastação de uma guerra desse porte.
Vi recentemente nas fotos de Capa, da Espanha de 1939, algumas pessoas extenuadas pela miséria e absoluta falta de recursos, usando nos pés as mesmas alpargatas.
Então, hoje, mais de vinte e cinco anos depois que minha mãe se foi, eu finalmente consegui vislumbrar todo o significado de uma frase boba do passado: um dia, em 1976 (talvez), talvez com meus 14 anos e todas as influências da contracultura hippie ainda pulsando fortemente no meu entorno paulistano, com pouco ou nenhum entendimento real do que havia sido aquela guerra para minha mãe, eu entrei em casa feliz da vida usando um par dessas alpargatas de lona com solado de corda. Estavam super na moda.
Havia comprado com minhas economias de uma mesada incerta e bissexta. Estava me achando a própria Joan Baez ou algo assim, compondo perfeitamente com meu jeans surrado e agarradíssimo. Mostrei à minha mãe.
Ela me olhou entre a desaprovação e a tristeza, e disse, em bom castelhano: no me gusta que lo uses.

Tive muitas alpargatas depois daquela. E com todas as excentricidades que eu me atrevia a vestir naquela época, foi essa a única peça de vestuário que minha mãe desaprovou em toda sua vida.

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